Reassistindo Coragem, o cão covarde

AAAAAAAAAuuAAAAAAAuAAAAAAAAAAAAhhh
-Coragem
E aí, de boa?
Comecei a rever o Coragem, como um desenho mais leve pra ver tipo depois de almoçar se tiver uns minutos, ou até de noite quando já tô sem energia e preciso de algo que não precise pensar muito.
Tô me divertindo muuuuuuito reassistindo um desenho da infância assim, e como adultos surgem algumas percepções diferentes que vou contar hoje.
Resuminho
Se você não assistiu ou não se lembra, o Coragem foi adotado pela Muriel e mora com ela e o Eustáquio num lugar remoto.
Coisas estranhas acontecem por lá, e sobra pro coitado do Coragem tentar avisar a Muriel e o Eustáquio, que geralmente ignoram seus avisos.
Ao fim e por muitas vezes, as ameaças são criaturas incompreendidas ou angustiadas. O "Mal" real muitas vezes passa pela maldade humana, geralmente passando pela ganância do próprio Eustáquio.
Te parece familiar isso? Talvez te lembre de um certo diretor de filmes de terror em que as coisas também acontecem assim? Um conceito comum entre Coragem e que atravessa toda a obra do Guilherme Del Toro é que a maldade vem dos seres humanos, e não dos monstros/criaturas.
A sombra do Jung no primeiro episódio
Se liga nos conceitos que a gente tava sendo apresentado quando criança assistindo coragem.
No primeiro episódio, aparece uma sombra assustadora que deixa o Coragem aterrorizado.

Ao longo do episódio, Coragem usa um computador (!!!) pra pesquisar como se livrar da sombra.

Note que, o desenho começa em 1999, e a internet como conhecemos ainda estava nos primórdios. O Google mesmo foi lançado em 1998, apenas um ano antes.

Então, o computador sugere que pra se livrar de sombras malignas, é preciso de uma boa conversa.
Uma conversa franca... COM A SOMBRA??? kkkkkkk Lançaram O Jungão no primeiro episódio véi

Depois de muitos sustos e trapalhadas, o Coragem conversa com a sombra. A sombra revela que não sequestrou a Muriel, acontece que ela estava no banheiro esse tempo todo que tinha desaparecido.
E aí sombra diz que estava assustando as pessoas porque se sentia amargurado, já que era a sombra de um velho rico e cruel que havia morrido. Mas na verdade, a sombra queria ser uma estrela, ser do showbiz

Após essa conversa, Coragem tem a ideia de dizer pra sombra ir ficar junto com as outras estrelas no céu e realizar seu sonho.
AAAAAAAAAAAAAAAAAAa muito bom isso!
Os enquadramentos
Hoje que estudo fotografia, eu consigo apreciar melhor as escolhas de planos e enquadramentos, e como isso manipula a nossa sensação.
No Coragem, muitas vezes tempos esses planos bem abertos, como se fossem de uma lente grande angular, bem destorcidos até:

E isso faz total sentido dentro da temática, pois esses planos abertos causam algumas sensações no gênero do terror, como desorientação, solidão (de fato eles estão no meio do nada), atmosfera opressiva.
E eu sinto exatamente isso assistindo o coragem. Sensação de que não tem ninguém pra ajudar em volta, é o coitado do Coragem contra tudo e contra todos
Desenhos de um tempo que não existe mais
Talvez eu esteja ficando velho. Mas parece que eu sinto uma nostalgia, tipo uma saudade de um tempo que já mudou.
Coragem é um desenho feito com muito capricho, muito carinho. Dá pra perceber na profundidade de todas as referências, e isso pra um desenho que seria pra crianças.
Hoje a lógica da produção de animação mudou muito. No conteúdo pra crianças não se tem mais distinção entre o que é o conteúdo e o que é propaganda. O capitalismo tardio/neoliberal avança sem freios pra todas as esferas.
Mas como eu disse, talvez seja só eu ficando velho e reclamão.
Recado pro Coragem
Coragem, muito obrigado por ter feito parte da minha infância.
Eu fui muito feliz assistindo suas trapalhadas na sala da minha casa, numa época que eu ainda não sabia o que estava por vir.
Obrigado por me apresentar inúmeros gêneros de terror e obras de arte, muito antes de eu poder entendê-las.
Obrigado por me mostrar que devemos agir. Mesmo com medo, não paralisar. Nem se manter indiferente diante da injustiça contra os incompreendidos, ou da ganância humana.
Por todas as risadas de muitos anos atrás, e também as de agora.
Muito obrigado.