🎬 Alguns planos de filmes, séries e desenhos que eu escrevi um pouco sobre. Embaixo da foto tem o link pro post, ou veja a tag #filmes ;)
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A Odisséia do Nola

Sabadão o date foi no cinema vendo o filme do Nolan. Poraaaa, um puta filme. Se tem dúvida se vale a pena ver ou não, eu resumo: VALE.
Não vou dar spoilers, se é que é possível dar muitos spoilers de canções de 3000 anos, especialmente histórias essas que moldaram o imaginário popular do ocidente desde então.
O diretor traz algumas soluções criativas pra adaptação pro cinema, e claro que toda adaptação terá suas limitações. Eu quero digerir melhor o filme e em outro post talvez aprofundar melhor em alguns detalhes.
Por hoje, só menções honrosas! E vamos começar com o troféu máximo de bom garoto para o ARGOS, o cachorro que esperou Odisseu por 20 anos. Não há um personagem com tamanha pureza e lealdade. E como eu sempre gosto de acreditar, nós, humanos, não merecemos a pureza dos cachorros. Argos para sempre <3

A segunda menção vai para Calypso:

Opa, essa não (mas poderia), ESSA, com a Charlize Theron, que ficou impecável no papel:

Das tecnicalidades, consegui ver no IMAX na proporção 1.90:1, que não é o jeito que foi filmado, mas é bom o suficiente, considerando que não tem sala IMAX 70mm no Brasil. Dá uma olhada nesse post da Guiana Brasileira pra entender melhor esse drama: Christopher Nolan fez o que parecia impossível. Entenda a tecnologia por detrás de “A Odisseia”

Devo trazer outros posts mais elaborados sobre o assunto depois que eu processar melhor tudo. A experiência no cinema é bem intensa, as 2 horas e 50 minutos passam voando. Não levantei nem pra ir no banheiro. Eu quero agora fuçar nos making-offs, tem muitas coisas interessantíssimas na parte técnica da coisa. A principal: não tem CGI nem tela verde em nada. É TUDO EFEITO PRÁTICO! Sensacional! Esses filmes de tela verde me dão uma agonia imensa.
Se você assistir, me conte suas impressões no deixe um salve que eu ficarei bem feliz.
Até a próxima!
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Avicii: Meu Nome é Tim (2024)

Há uns meses vi o filme Avicii: Meu Nome é Tim (2024) e desde lá estou matutando algumas coisas. Vou compartilhar um pouco hoje sobre percepção da genialidade nas várias esferas da música, como o período influencia a arte, profissão X arte, e sobre realismo capitalista. Bora!
A primeira coisa que me pegou no filme foi entender um pouco de como se faz a música eletrônica. Nunca pensei muito sobre isso, e na época do Avicii eu não me ligava muito nesse gênero. Mas aí vem a pergunta: se o computador gera a música, existe arte ali?
Ao que descobri que sim, muita! O Tim era um multi-instrumentista e dominava o piano e o baixo. Mas ele, ainda jovem, percebia que não teria a paciência pra praticar anos pra poder se expressar artisticamente, e nem a resistência física pra poder praticar horas por dia e apresentar suas performances num palco. Logo, o Tim tinha um grande domínio de teoria musical, melodias, tons e arranjos. Ele tinha a tal inteligência musical, que na cabeça dele essas loucuras toda faziam sentido.
E aí temos um ponto de virada que explica meu argumento em prol de que esse maluco é gênio: ele foi entendendo que a produção eletrônica dele era o meio, não o fim. O meio pra servir outras construções musicais como a voz e outros instrumentos. Com isso ele investiu em melodias mais minimalistas que exaltavam e complementavam a voz.
Um episódio zuadaço foi em 2013, no Ultra Music Festival, em Miami. o Tim/Avicii já estava no auge. Nessa pegada de ter a voz como assunto principal e a música como suporte, eles tocaram Wake Me Up1 pela primeira vez, que é uma música que começa só com um banjo e a voz. Viiiiiiiiiiiiiiiiishhhhhhh. O bando de playboy safado da platéia não gostou nada disso. Depois de passarem um dia todo cheio de tuts tuts intermináveis, pirotecnia e dançarinas de biquini, a galeria simplesmente odiou a ideia mais minimalista e teve vaia.
Esse foi um momento muito dramático pro Tim, e o filme mostra bem como a rejeição o afetou na época. Curiosamente, após alguns meses, essa música se tornou a #1 em vários países. Pelo jeito, o público de playboy-vagabundo-que-paga-pra-ver-o-artista-e-depois-vaia só não estava preparado mesmo pra ver um novo paradigma da música, tanto é que esse estilo de misturar folk e country com as eletrônicas cresceu muito após isso.
A insegurança do Tim era: será que eu sou um músico de verdade? Pra responder isso, vou ter que misturar os assuntos. Luiz Gonzaga: cantor, compositor e multi-instrumentista é um artista que muitas vezes chegava pro sudeste de forma simplista como apenas "Artista regional" do nordeste. Acontece que Luiz Gonzaga é outro desses gênios. Da melodia, harmonia musical. Coisa de outro mundo mesmo. Tem uma entrevista que eu gosto muito que o Luiz Gonzaga conta que foi negado numa orquestra (depois da fama) por não saber o que era mi bemol2 , já que tocava tudo de ouvido. Então pra mim ta aí, acho que esses dois representam uma genialidade musical à frente do seu tempo, cada um do seu jeito.
Daí pra frente Tim sofre muito. Parte do dilema era conseguir entregar os shows contratados, mas aquilo já ia ficando insuportável, o que foi compensado com álcool e analgésicos. É um declínio triste, dá pra ver que ele ama a música como sua forma de expressão, mas odeia o ambiente em que pode fazer música3
Mas ei! Esse não é um post triste. Agora vamos passar por algumas das minhas músicas favoritas e falar sobre algumas interpretações:
Músicas e interpretações
Pra mim, o Realismo Capitalista4 é o que melhor explica esse período da música do Avicii na Europa. O sentimento de desesperança, talvez um apego com um passado que não existe mais na música Wake Me Up (2013)1:
They tell me I'm too young to understand
They say I'm caught up in a dream
Well, life will pass me by if I don't open up my eyes
Well, that's fine by meSo wake me up when it's all over
When I'm wiser and I'm older
All this time I was finding myself
And I didn't know I was lostÉ importante notar que o sentimento geral na Europa era bem diferente no Brasil, os ditos centralidade do capitalismo x periferia/sul global. O Realismo Capitalista é de 2008, e já tinha se formatado uma realidade pros mais jovens de falta de perspectiva em temas de trabalho e sociedade.
E aí outras músicas trazem uma certa pureza de afeto, uma poesia simples e singela em Gonna Love Ya (2015)5:
I'm gonna love ya, like no one could
Make your heart feel the way it should
I'm gonna hold ya, when no one would
'Cause I swear you deserve so goodLivin' up in California
Lovin' life but I've been waiting for ya
To turn my dreams and twist my fate
But God I hope it's not too lateE aí uma música não do Avicii, mas do mesmo período que mostra essa ideia de um passado mais romantizado, como em Lean On (feat. DJ Snake & MØ) (2015):
Do you recall, not long ago
We would walk on the sidewalk
Innocent, remember?
All we did was care for each otherBut the night was warm
We were bold and young
All around the wind blows
We would only hold on to let goTraz uma ideia de que no passado havia mais parceria, como em All we did was care for each other. Parece que a ideia de olhar pro futuro é tão dolorosa que resta olhar pro passado com nostalgia.
Por fim, não deixe de ouvir a versão de Feeling Good:
Pra mim a música é uma forma de dar um grande passeio pela humanidade, pelo imaginário popular. As músicas não documentam "bem como era", mas quase isso. Elas documentam mais ou menos o que se esperava que a arte captasse. É um recorte imperfeito, claro, mas eu fico alucinado nessas paradas. A arte, com todas as suas formas, é bela!
Entrevista do Luiz Gonzaga dizendo não saber o que era mi bemol↩
Veja também: - O profissional bom tem que trabalhar com ódio?↩
Estou enrolando pra fazer um post mais completo sobre o Realismo Capitalista. Até lá, dê uma olhada nesse post: - Tem capitalismo até depois da morte? Filmes da semana #2↩
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Quem é o vilão de Encanto (2021)?

Hoje o tema é sério. O th.blog.br vai virar um tribunal, e nós vamos avaliar e julgar quem é o vilão de Encanto. Nada passará despercebido aos nossos olhos.
Para o júri: vou deixar a sinopse do filme para estarmos todos bem localizados. Teremos spoilers nesse julgamento. Não sei dizer se estragaria a experiência do filme (por mim, não). Prossiga por sua conta e risco.
Sinopse: Encanto conta a história dos Madrigal, uma família extraordinária que vive escondida nas montanhas da Colômbia, em uma casa mágica (...). A magia deste Encanto abençoou todos os meninos e meninas da família com um dom único, desde superforça até o poder de curar. Todos, exceto Mirabel. Mas, quando ela descobre que a magia que cerca o Encanto está em perigo, Mirabel decide que ela, a única Madrigal sem poderes mágicos, pode ser a última esperança de sua família excepcional
A trama se desenrola a partir de Mirabel que é a única que não foi agraciada com um dom; então, ela está rodeada de pessoas com superforça, audição, cura, previsão do FUTURO e muito mais. Imagina a ceia de Natal dessa criatura!?
Aos poucos vemos que tem algo errado. O milagre, representado pela vela mágica, está ruindo. A casa mágica parece estar rachando, e os dons de cada pessoa da família parecem estar enfraquecendo. Ao investigar a situação, Mirabel vai puxando o fio e descobrindo todos os podres da família.
Vamos investigar:
Mirabel

A música da Mirabel começa com meditações sobre como ela se sente a rapa do tacho na família. A pressão implícita faz com que ela não se sinta suficiente, mesmo ela tentando se convencer com "Hey, I'm still a part of the family Madrigal".
Don't be upset or mad at all
(...) Hey, I'm still a part of the family Madrigal
And I'm fine, I am totally fine
I will stand on the side as you shineI can't heal what's broken
Can't control the morning rain or a hurricane
Can't keep down the unspoken invisible pain
Always waiting on a miracle, a miracleDepois a música desenrola pra realmente oficializar um pedido, uma oração:
I am ready, come on, I'm ready
I've been patient, and steadfast, and steady
Bless me now as you blessed us all those years ago
When you gave us a miracleE termina com:
Am I too late for a miracle?
Já temos então a primeira personagem Ablublubé das ideias. Lembre-se de que a personagem tem 15 anos, uma idade em que tentamos nos entender no mundo e muitas coisas estão mudando. A impossibilidade de servir a família nos padrões que a mesma espera causa muito sofrimento e vamos investigar de onde vem essa cobrança e pressão.
Luisa

Seguimos com a personagem Luisa, que tem superforça. Posso falar com transparência aqui perante o júri? O povo dessa vila maldita trata a Luisa como se fosse um burro de carga. É isso. O povo não pede nem POR FAVOR! BANDO DE FOLGADO! Perdão, senhores e senhoras do Júri, eu me exalto com esse tipo de situação.
Pra mostrar a folga desse povo, veja como as pessoas pedem favores:
— Luisa, pode redirecionar o rio?
— É pra já!
(...)
— Luisa, os burros fugiram de novo...
— Já vou
(...) \Repare, não tem nem bom dia. Esse bando de folgado já tá tão acostumado com ela fazendo tudo sem reclamar que esqueceram a educação pra lidar com outra pessoa.
E aí começa a música da Luisa:
I don't ask how hard the work is
Got a rough, indestructible surface
Diamonds and platinum, I find 'em, I flatten 'em
I take what I'm handed, I break what's demanded, butUnder the surface
I feel berserk as a tightrope walker in a three-ring circus
Under the surface
Was Hercules ever like: Yo, I don't wanna fight Cerberus?Será que a representação de Hércules em Encanto poderia se mostrar vulnerável e humana?

Under the surface
I'm prеtty sure I'm worthless if I can't be of sеrviceBOOM. De novo, o valor da Luisa parece ser puramente a sua utilidade perante a família e a comunidade.


Prosseguimos:
Bruno

Ao buscar as fofocas da família pra tentar entender por que a magia está enfraquecendo, Mirabel descobre que tem um Tio "exilado". Bruno é o que tem o dom de prever o futuro e, no passado, ele fez previsões que incomodaram a família, o que causou seu exílio. Era algo sobre o fim da magia/milagre. Eitaaa!
A música de Bruno é diferente, pois ao contrário das outras músicas, não é o personagem que canta sua própria música. Cantam por ele, e o tema é "Não falamos do Bruno":
A seven-foot frame, rats along his back
When he calls your name it all fades to black
Yeah, he sees your dreams and feasts on your screams
Ao que tudo indica, Bruno seria nosso vilão. Ele tem as clássicas cores verdes dos vilões da Disney e pinta de vilão, mas não estou convencido. Vamos olhar as evidências da música. Basicamente estão crucificando o Bruno por conta de algumas previsões que ele fez:
He told me my fish would die, the next day, dead (no, no)
Ué, mas quanto tempo é pra viver um peixinho? E não vamos morrer todos?
He told me I'd grow a gut and just like he said (no, no)

Às vezes ele vê que o tiozinho é pinguço e vai ficar barrigudo mesmo - uma inevitabilidade.
He said that all my hair would disappear
Now, look at my head (no, no)
(...) É, o padre ficou careca. É culpa do Bruno agora?
Your fate is sealed when your prophecy is read
Calma, galera!
We don't talk about Bruno, no, no, no
We don't talk about BrunoTem um detalhe muito importante aqui: todas essas supostas profecias que a família e a comunidade usam pra taxar o Bruno de vilão, na verdade, NÃO SÃO PROFECIAS DO DOM DELE!
Exatamente. Nas profecias reais vindas do dom, fazer uma previsão é uma coisa um pouco mais complexa. Exige um estado de concentração e existe uma ambiguidade na interpretação da profecia. Ao que tudo indica, ele não estaria usando as profecias pra saber se o padre ia ficar careca ou não. Mais provavelmente eram observações rotineiras mesmo.
Nisso tudo, anos antes, Bruno teria visto uma profecia sobre o fim da magia, o que não caiu bem pra família, e isso teria causado seu exílio.
Isabela

Descrita como a perfeitinha da família, a Isabela carrega o fardo de viver sob as expectativas de perfeição da véia (A Abuela), que inclusive arranjou um casamento pra coitada com um tonhão lá. É como se ela não tivesse valor nenhum por sua personalidade, apenas por sua aparência perfeitinha e seu potencial de casamento. Ê! Papo estranho, hein?
Ainda na música de "We don't talk about bruno", a parte da Isabela canta assim:
He told me that the life of my dreams
Would be promised, and someday be mine
He told me that my power would grow
Like the grapes that thrive on the vine
Vemos que a vida de seus sonhos AINDA seria sua, ou seja, essa vida mascarada de perfeita claramente não era a vida de seus sonhos (!!!).
No confronto com Mirabel, a música da Isabela mostra como ela está rompendo o véu da perfeição e entendendo sua autenticidade:
I just made something unexpected
Something sharp, something new
It's not symmetrical or perfect
But it's beautiful, and it's mine
What else can I do?(...)
Can I deliver us a river of sundew?
Careful, it's carnivorous, a little just won't do
I wanna feel the shiver of something new
I'm so sick of pretty, I want something true, don't you?
E não queremos todos algo real, cara Isabela?
Seguimos!
Abuela

A lista de opressões da véia até aqui:
- Tratar a Luisa como burra de carga
- Forçar Isabela num casamento arranjado "pelo bem da família"
- Deixar Mirabel Ablublubé por não ter um dom e não se sentir digna de fazer parte da família
- Exilar o Bruno por intolerância e por não querer enxergar a verdade ou lidar com o futuro. Inclusive, Bruno estava o tempo todo ESCONDIDO ATRÁS DA COZINHA DA FAMÍLIA! MEU DEUS!!!
- Repressão emocional contra a Pepa, a outra personagem que controla o clima com suas emoções
Eu já vi tudo o que eu precisava saber.
Veredito
Ao que tudo indica, deveríamos crucificar a Abuela. Concorda?
Acontece que temos novas evidências. A música "Dos oruguitas" conta história do trauma da própria Abuela. Teve uma separação forçada e a perda de seu marido. Vemos como isso culmina na rigidez com que ela trata sua família. Como se a pressão e a rigidez fossem formas de evitar que o trauma se repetisse e também uma forma de pagar de volta à comunidade e agradecer ao milagre.

"Dos Oruguitas" significa "Duas lagartas", é a única música inteira em espanhol do filme:
Dos oruguitas, enamoradas
Pasan sus noches y madrugadas
Llenas de hambre, siguen andando
Y navegando un mundo que cambia y sigue cambiando Navegando un mundo que cambia y sigue cambiandoA inevitabilidade da mudança é central na trama de encanto. A repressão do Bruno e suas profecias é uma tentativa de suprimir a inevitável mudança do mundo.


Ay oruguitas, no se aguanten más
Hay que crecer aparte y volver
Hacia adelante seguirás
Vienen milagros, vienen crisálidas
Hay que partir y construir su propio futuroAs lagartinhas precisam se separar para poder crescer, lidar com as mudanças e construir o futuro.
Ay mariposas, no se aguanten más
Hay que crecer aparte y volver
Hacia adelante seguirás
Ya son milagros, rompiendo crisálidas
Hay que volar, hay que encontrar su propio futuroBorboletas, não esperem mais. Vocês precisam se distanciar pra crescer. Romper o casulo já é um milagre. Vocês têm que voar e encontrar seu próprio futuro.

A resposta pra "quem é o vilão em Encanto", como pode ver, não é tão simples. Achei brilhante essa jogada da Disney de pintar alguns falsos vilões (Bruno, Abuela), pra falar de um vilão muito mais abstrato e muito mais difícil de combater. Podemos pensar no trauma geracional, em que questões não resolvidas dentro de uma família vão gerar escape de pressão para outras pessoas. Podemos pensar na inevitabilidade da mudança: o futuro não pede licença, as coisas mudam, e, como borboletas, a transformação é necessária pra construir um futuro. Não há como caber em um passado que não existe mais.

Num dia você fala assim HEHEH vo assistir um filme de criança ali pra relaxar. No outro vc tá escrevendo um texto já com +2000 palavras pra ver em detalhes todas as belas nuances desse filme. Vamos falar também de várias pequenas curiosidades que me deixam muito feliz:
Curiosidades
A tecnologia pra renderizar os cabelos nas animações vinha melhorando, dando bons saltos em Valente (2012) e Moana (2016). Mas foi só em Encanto que tivemos TODOS os tipos de cabelo representados.

Eu sou, digamos, meio obcecado por saber quem são as dubladoras das animações. Às vezes não prestamos tanto atenção nisso, afinal, "é só a voz", mas a dublagem precisa trazer toda a carga de sentimento necessária pra história. Muitas vezes são artistas de voz com talento de sobra.
Meu destaque hoje vai para:
Stephanie Beatriz, dublando a Mirabel. Stephanie é a nossa eterna Rosa, Rosa, Rosa do Brooklyn 99, e também tem um papel como personagem em Bojack Horseman , fora mais um monte de trabalho. Ela uma capacidade de fazer alternar entre uma voz grave e aguda que parece duas pessoas diferentes. Talentosíssima!

Jessica Darrow, dublando a Luisa. Atriz e cantora. Como a Luisa é uma personagem fortona, a dublagem trouxe uma voz bem mais grave do que a típica que a música da Disney pediria. Uma parada meio rouca às vezes, um pouco áspera. E também a entrega da voz em que você consegue sentir um cansaço pela pressão.

Diane Guerrero, dublando a Isabela. Muito bonita a suavidade da voz pra combinar com a personagem, e também é bonito ver a autenticidade brotando na personagem da Isabela.

Pra finalizar as curiosidades, o filme se passa na Colômbia e tem um certo autor muito importante lá... lembrou quem? Gabriel García Márquez CARAI! Ó O HOMI AI! Essa referência foi confirmada pelos criadores. A homenagem direta pra Cem Anos de solidão fica com as borboletas amarelas da música "Dos Oruguitas" , mas também toda a trama dialoga diretamente com o realismo mágico, família, solidão, etc.

Se quiser comentar esse texto, é só deixar um salve aqui
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Bentinho é um vacilão

Foto minha no Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro Pra fechar a dupla de posts sobre o bruxo do cosme velho, vamos falar também de Dom Casmurro, esse romance que até hoje gera altas brigas acerca de se Capitu traiu ou não.
Minha relação com esse livro começa lá pros 12/13 anos, quando peguei ele na biblioteca pra ler. Já tinha um bom hábito de leitura, vi que esse era "um dos famosos" e bora pra jogo.
Acabei achando chato. Na época até achei legal a parte da Capitu e Bentinho tendo seu romance escondido, porém um tanto maçante. Lá pra época do seminário eu já não estava entendo mais porra nenhuma, detestando o ritmo e acabei abandonando.
Existiam muitas coisas que o th-zinho daquela época não sabia. A principal era a introdução de um protagonista que não era pra ser, digamos... "virtuoso". De alguma forma eu lia aquilo considerando que Bentinho seria um bom moço no final, e essa era sua história de heroísmo e superação.
Estava muito enganado. Personagens do seu estilo de realismo machadiano são complexas, trazem contradições e defeitos brutalmente humanos. O narrador também não é confiável. Não é porque ele está contando a própria história que ele não está distorcendo a realidade. Por muitas vezes, por exemplo, Bentinho barganha com deus pra conseguir o que quer. Diz que vai rezar 100 Pai-nossos pra conseguir o que quer. Ele não paga sua dívida com deus, faz uma nova promessa, dessa vez dobrando a aposta. Consegue o que quer. Não paga de novo.
A outra questão que eu não estava preparado pra entender era a classe social daquela família descrita, a tal casa dos três viúvos: Dona Glória, a mãe de Bentinho, junto com Tio Cosme e Tia Justina. Era uma família abastada, e seu poder econômico ditava algumas dinâmicas dentro da história, por exemplo, a depreciação de José Dias contra a família de Capitu por serem de um status inferior, e que poderia até ter usado o casamento não por amor, mas como forma de ascensão social.
Tem uma questão do seminário importante também. Dona Glória havia prometido um filho ao seminário caso o filho nascesse saudável. Como ela enviuva cedo, ela tem apenas Bentinho como seu filho e herdeiro, e agora ele está prometido pra Deus pra ser padre no seminário. Que abacaxi, hein? Pra uma família abastada esse é um grande drama. Três viúvos, nenhum herdeiro, e o único homem vai virar padre.
Ao fim da trama do seminário, a família acha ainda mais uma forma de surrupiar deus. Eles vão pagar o seminário pra algum orfão qualquer virar padre no lugar de Bentinho, logo, a promessa para deus estaria cumprida e a herança também. O poder do dinheiro que compra até deus, veja só você!
Bom, me estendi bastante nessas dinâmicas que foram muito importantes pra eu entender o livro depois de adulto. No mais, o interessante é ler esse livro prestando atenção nas canalhices do bentinho e família que vão se acumulando ao longo do livro. Vai ficando claro o quanto o narrador não é confiável.
Pra finalizar, eu amo como tanto o Dom Casmurro e Brás Cubas narram a perspectiva de uma vida toda, da infância à velhice. Parece que isso coloca tudo na sua devida perspectiva de grandeza, como quando somos crianças e tudo parece o fim do mundo. O tempo passa e olhando de uma certa distância, conseguimos trazer novos olhos pras situações.


Queria falar um pouco também da minissérie:
Capitu (2008)
A seleção pro ator do Bentinho jovem ficou impecável. Uma cara de menino mimado, extremamente socável. Perfeito! Mas sério, o mlk é bom mesmo. Eu adorei essa cena do episódio do seminário:


Imagino o diálogo da seleção pra atriz da Capitu:
— Cleitinho, nós precisamos de uma atriz com olhos de cigana oblíqua e dissimulada
— Que porra é essa Juradir?
— Ah sei lá acha uma mulher zóiuda aí e prontoE assim escolheram a Letícia Persiles, que é atriz e cantora. Ficou maravilhosa no papel:


O Escobar surge como um personagem imponente, na sua introdução chega dançando em cima da mesa, ao som de "Iron Man", do black sabbath. Bentinho fica se tremilicando todo de admiração quando o vê pela primeira vez:



A mãe de Bentinho (Eliane Giardini) ficou bonitona no papel:

Tem também uma mixagem de elementos modernos, tipo placas de rua, em algumas cenas. Eu achei isso absolutamente fantástico:

A cena em que ele tenta dar veneno pro filho. É um vacilão memo passível de toma um salve:

É isso por hoje, apenas alguns fragmentos sobre a série, mas eu achei uma série extremamente bem feita, misturando uns elementos mais teatrais com uma montagem de narração + cenas que ficaram incríveis. Vale muito a pena ver e são 5 episódios só. Selo th de garantia! hehe
No fim, traiu ou não traiu?
Isso é muito simples. Eu acho que
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The Mastermind (2025): na minha vez, deus vai me usar de exemplo

e aí, de boa?
Estamos acostumados com filmes e séries de "Heist", aqueles onde os protagonistas realizam um roubo muito foda, com tudo planejado, com saídas pra todas as coisas que podem acontecer de errado.

Porém The Mastermind é de uma outra forma. Eu poderia dizer que o protagonista é meio burrinho, mas é que na verdade não é nem isso.
Sinopse: Em 1970, Mooney e dois colegas entram em um museu em plena luz do dia e roubam quatro pinturas. Quando guardar a arte se mostra mais difícil do que roubá-la, Mooney é relegado a uma vida em fuga.
Ele é só um cara normal com a ideia de roubar um museu. E como pessoas normais, muitas vezes a gente subestima a complexidade de certas tarefas. Eu gostei do filme justamente pelo olhar realista e essa desconstrução dos filmes de Heist.
Se a gente pensar pra além da trama principal, eu consegui pescar um certo viés de classe na mentalidade do protagonista.
Veja, o protagonista é filho de uma família rica, com um pai juiz que o enxerga como um fracassado e vive comparando ele com o seu irmão bem sucedido.
Posso fazer uma rápida correlação com o Quem vai te amar quando você não for mais útil?, pois tal como Kafka, o valor dele pra família partia da utilidade, e ele não conseguia suprir isso.
E aí ele parte desse desejo de ser bem sucedido aos olhos da famíia e e começa a planejar o roubo do museu. Note que o desejo do roubo vem por ego. Não é questão de necessidade material imediata.
E aí tem o outro ponto: O PRIVILÉGIO DE GÊNERO assegurado pela proteção das mulheres em volta.
Mesmo o cara sendo muito burro e tomando as piores decisões, ele não se lasca sozinho. Ele arrasta as mulheres da vida dele junto. A mãe emprestou dinheiro escondido do pai pra ele, e a esposa acabou sendo detida e interrogada também (e posteriormente deixada pois ele precisou fugir).
Além disso, ele passa boa parte do filme "achando que vai dar certo", que vai conseguir enganar a polícia.
Se a gente traçar um paralelo com Thelma & Louise, dá pra perceber a diferença do privilégio de gênero, pq Thelma & Louise não terceirizam a culpa pra ninguém, nem tentam se convencer que vão conseguir sair ilesas da situação.
Talvez dê pra interpretar isso como o protagonista ter sido mimado a vida toda, nunca ter sido punido por nada, e nunca de fato ter encarado as consequências das suas ações.
Acho que a mensagem mais interessante que fica pra mim seria: Tem que pessoas que podem se dar ao luxo de serem displicentes, porque sabem que alguém vai assumir o B.O quando der ruim.

Uma parte engraçada: O pai e o filho assistindo o crime no jornal, e pai diz que é uma bobagem terem roubado essas artes abstratas pois não tinham valor nenhum kkkkk
AINDA POR CIMA O ANIMAL NEM PRA ROUBAR DIREITO KKKKK

Ah, antes que eu me esqueça, eu gostei bastente do casal de protagonistas:
- Alana Haim: também fez Licorice Pizza (2021) do Paul Thomas Anderson
- Josh O'Connor: fez o filme Rivais (2024) sobre tênis, junto com a Zendaya. E também o mistério Knives Out (muito bom esse)
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Reassistindo Coragem, o cão covarde

AAAAAAAAAuuAAAAAAAuAAAAAAAAAAAAhhh
-CoragemE aí, de boa?
Comecei a rever o Coragem, como um desenho mais leve pra ver tipo depois de almoçar se tiver uns minutos, ou até de noite quando já tô sem energia e preciso de algo que não precise pensar muito.
Tô me divertindo muuuuuuito reassistindo um desenho da infância assim, e como adultos surgem algumas percepções diferentes que vou contar hoje.
Resuminho
Se você não assistiu ou não se lembra, o Coragem foi adotado pela Muriel e mora com ela e o Eustáquio num lugar remoto.
Coisas estranhas acontecem por lá, e sobra pro coitado do Coragem tentar avisar a Muriel e o Eustáquio, que geralmente ignoram seus avisos.
Ao fim e por muitas vezes, as ameaças são criaturas incompreendidas ou angustiadas. O "Mal" real muitas vezes passa pela maldade humana, geralmente passando pela ganância do próprio Eustáquio.
Te parece familiar isso? Talvez te lembre de um certo diretor de filmes de terror em que as coisas também acontecem assim? Um conceito comum entre Coragem e que atravessa toda a obra do Guilherme Del Toro é que a maldade vem dos seres humanos, e não dos monstros/criaturas.
A sombra do Jung no primeiro episódio
Se liga nos conceitos que a gente tava sendo apresentado quando criança assistindo coragem.
No primeiro episódio, aparece uma sombra assustadora que deixa o Coragem aterrorizado.

Ao longo do episódio, Coragem usa um computador (!!!) pra pesquisar como se livrar da sombra.

Note que, o desenho começa em 1999, e a internet como conhecemos ainda estava nos primórdios. O Google mesmo foi lançado em 1998, apenas um ano antes.

Então, o computador sugere que pra se livrar de sombras malignas, é preciso de uma boa conversa.
Uma conversa franca... COM A SOMBRA??? kkkkkkk Lançaram O Jungão no primeiro episódio véi

Depois de muitos sustos e trapalhadas, o Coragem conversa com a sombra. A sombra revela que não sequestrou a Muriel, acontece que ela estava no banheiro esse tempo todo que tinha desaparecido.
E aí sombra diz que estava assustando as pessoas porque se sentia amargurado, já que era a sombra de um velho rico e cruel que havia morrido. Mas na verdade, a sombra queria ser uma estrela, ser do showbiz

Após essa conversa, Coragem tem a ideia de dizer pra sombra ir ficar junto com as outras estrelas no céu e realizar seu sonho.
AAAAAAAAAAAAAAAAAAa muito bom isso!
Os enquadramentos
Hoje que estudo fotografia, eu consigo apreciar melhor as escolhas de planos e enquadramentos, e como isso manipula a nossa sensação.
No Coragem, muitas vezes tempos esses planos bem abertos, como se fossem de uma lente grande angular, bem destorcidos até:

E isso faz total sentido dentro da temática, pois esses planos abertos causam algumas sensações no gênero do terror, como desorientação, solidão (de fato eles estão no meio do nada), atmosfera opressiva.
E eu sinto exatamente isso assistindo o coragem. Sensação de que não tem ninguém pra ajudar em volta, é o coitado do Coragem contra tudo e contra todos
Desenhos de um tempo que não existe mais
Talvez eu esteja ficando velho. Mas parece que eu sinto uma nostalgia, tipo uma saudade de um tempo que já mudou.
Coragem é um desenho feito com muito capricho, muito carinho. Dá pra perceber na profundidade de todas as referências, e isso pra um desenho que seria pra crianças.
Hoje a lógica da produção de animação mudou muito. No conteúdo pra crianças não se tem mais distinção entre o que é o conteúdo e o que é propaganda. O capitalismo tardio/neoliberal avança sem freios pra todas as esferas.
Mas como eu disse, talvez seja só eu ficando velho e reclamão.
Recado pro Coragem
Coragem, muito obrigado por ter feito parte da minha infância.
Eu fui muito feliz assistindo suas trapalhadas na sala da minha casa, numa época que eu ainda não sabia o que estava por vir.
Obrigado por me apresentar inúmeros gêneros de terror e obras de arte, muito antes de eu poder entendê-las.
Obrigado por me mostrar que devemos agir. Mesmo com medo, não paralisar. Nem se manter indiferente diante da injustiça contra os incompreendidos, ou da ganância humana.
Por todas as risadas de muitos anos atrás, e também as de agora.
Muito obrigado.
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Não entendi foi nada: Morra, amor (2025)

E ai, de boa? Hoje vamos falar do filme "Morra, Amor (2025)" e vamos tentar entender esse trem kkkk
Sinopse: Em uma área rural remota e esquecida, uma mãe luta para manter sua sanidade enquanto luta contra a psicose.
Sobre o elenco: Turminha firmeza viu. No casal de protagonistas, temos a nossa eterna Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence), e claro, o VAMPIRÃO GELADO BRILHANTE que nos rende os melhores memes até hoje. Também tem a mulher que fez a Carie a Estranha de 1975.
não entendi nada mesmo?

perdão pelo click bait, dei uma exagerada kkkkk. Vou usar o gancho pra falar de algo que eu acho mais interessante: O CINEMA NAO PRECISA EXPLICAR TUDO. E TÁ TUDO CERTO.
Nem todo filme precisa ter um arco do herói bem definido, ou "fazer sentido" completo.
Tal como a vida, tá tudo acontecnedo, as contradicões tao rolando e nem tudo se resolve ao fim do filme. É uma forma de cinema mais reflexiva, contemplativa.
E eu entendo que filmes são mais estranhos a princípio, mas pensa da seguinte. Vc tá vendo um filme pra passar por uma experiência. Qual experiência? Chega mais pra ver a tematica do filme abaixo.
tematica do filme

Se eu ainda não te espantei, o filme vai explorar o colapso psicológico da protagonista. Isso vai rolando de forma não tão linear e progressivamente.
Passa por temas como a paixão, numa dualidade entre intensidade e destruição. Passa pelo caos que relacionamentos podem ser.
E também por muitas contradições, e com um final que vai ser ambiguo.
outras curiosidades
Essa diretora também fez o "Precisamos falar sobre Kevin". Dá vontade de ligar pra essa mulher e perguntar se tá tudo bem com ela kkkkk dois filmes bem tensos.
Lembrei do filme Boyhood, no sentido que "é um filme que nao acontece nada, mas acontece tudo". Não tem um grande arco acontecendo, tem apenas a vida rolando com todas suas nuances e contradições. E isso que torna Boyhood um filmão
Ah, nesse filme tem também o cara que faz o seriado Atlanta:

conclusão.
É essa a ideia de hoje, valeu, é noiz!
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Dois filmes da gambita pra assistir num sabadão - Confia #1

E aí, de boa? Tem filmes que são muito bons, mas não tenho muito oq falar e posso estar com preguiça de escrever. E aí tô lançando agora a nova série do blog, que eu vou listar os filme, e vou falar: CONFIA, só vai!
É suficiente né? Quem tá lendo confia em mim? 🤔
Bora começar.
Quem é a gambita?

É a Anya Taylor-Joy! Acontece que a primeira série que vi dela foi o seriado "O Gambito da Rainha". Diga se de passagem que é uma série muito boa também e vale o selo "CONFIA" de qualidade.
E aí ficou, todo filme que tem ela, Lilian e eu falamos: A lá a gambita da rainha. E assim foi.
Confia: Noite Passada em Soho (2021)

Sinopse: A aspirante a estilista Eloise consegue misteriosamente voltar para a Londres dos anos 1960, onde conhece a deslumbrante aspirante a cantora Sandie. Mas o glamour não é o que parece, e os sonhos do passado transformam-se em algo sombrio.
A história é muito boa e tem uma montagem muito interessante. O bixão Edgar Wright intercala cenas de Londres de 1960 com atuais.
É um filme bem dinâmico também, aquele filmão pa tu estralar num sábado ou domingo de chuva, sem medo de ser feliz.
Ah esse caba diretor? Edgar Wright? O cara é bom viu. Tem uns outros filmes dele "Baby Driver", trilogia cornetto que sempre entregam um humor diferenciado e uma estética foda.
Confia: O Menu (2022)

Sinopse: Um jovem casal viaja para uma ilha remota para comer em um restaurante exclusivo, onde o chef preparou um menu luxuoso, com algumas surpresas chocantes.
Malandro, o Chef é o ator do Voldemort do harry potter hhahahha o cara é bom. E tem também claro a nossa querida Gambita.
A crítica do filme vai passar em torno da contradição onde se perde a alma da comida em função da glamurização/instagramação.
É isso por hj, valeu, é noiz!
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Tem capitalismo até depois da morte? Filmes da semana #2

E aí, de boa?
Hoje vamos falar do filme "A Vida é uma Festa":
Sinopse: Em Viva - A Vida é uma Festa, Miguel é um menino de 12 anos que quer muito ser um músico famoso, mas ele precisa lidar com sua família que desaprova seu sonho. Determinado a virar o jogo, ele acaba desencadeando uma série de eventos ligados a um mistério de 100 anos. A aventura, com inspiração no feriado mexicano do Dia dos Mortos, acaba gerando uma extraordinária reunião familiar.
O filme explora a cultura mexicana do Dia de Los Muertos. Particularmente eu acho muito interessante essa perspectiva de relembrar a memória com festa, o que é diferente do que a gente faz no Brasil. Mas isso é papo pra outro dia.
No dia delos muertos as pessoas fazem as ofrendas, que são aqueles altares com fotos, velas, comida. Tudo isso parte de uma simbologia:
- O altar como um convite pras pessoas mortas visitarem os vivos
- Comida e bebida para nutrir os mortos após uma longa viagem
- Velas e flores pros mortos encontrarem o caminho
- Em essência um ato de hospitalidade.

No filme, esse conceito muda um pouco. Conseguimos ver o "céu" onde os mortos ficam, e ai que começa o realismo capitalista hahahah
O altar no filme tem um propósito economico. BASICAMENTE, no filme, se ninguém se lembra de você após a sua morte, você vai morrer de novo, só que dessa vez de forma PERMANENTE.
E aí isso cria uma lógica economica:
- Pessoas famosas, serão muito lembradas, logo -> viverão para sempre no céu
- Pessoas menos conhecidas, serão pouco lembradas, e em breve "vão de americanas pra valer".
Mas não só isso, calma que piora:
As pessoas que são muito lembradas pelas pessoas vivas são retratadas como RICAÇOS no céu. O antagonista é um cantor famoso pilantra, que depois da morte vive numa puta mansão do silvio santos. PASME: com empregados e os caralho.

E as pessoas que não são lembradas?
Malandro, as pessoas "pobres/que nao sao lembradas" vivem numas cracolândias lá do céu. Corpos definhando, esperando a "morte" que vai ser quando a última pessoa viva esquecer delas.
Doido né? É, vamos fazer umas analises agora:
Até no céu tem capitalismo?
Não tem alternativa? A lógica da mercadoria continua até depois da morte?
Aqui que a parada fica curiosa. Esse filme dialoga totalmente com o Realismo Capitalista. O livro explica a ideia de que nossa realidade é composta de compreensões do mundo baseadas em ideologia que rejeitam fatos de fora de suas interpretações.
Perai que complicou, mas é o seguinte:
Nossa compreensão de mundo é tão ideologicamente enviesada, onde o sistema capitalista se mostra como o único possível. Nessa compreensão de mundo, é difícil imaginar (mesmo na arte, cultura pop) um mundo diferente.
A mesma coisa acontece no Wall-e, onde mesmo depois do mundo ser destruído pelo capitalismo e estar zoadão cheio de lixo, o capitalismo ainda existe nos astronautas lá do filme.
Esse artigo é especial pra mim
Mark Fisher, autor do Realismo Capitalista, conseguiu sintetizar muito bem as angústias modernas no seu livro. Questões como essa desesperança sistêmica e falta de perspectiva em temas de trabalho e sociedade. Acho um livro essencial pra se localizar nesse mundo caótico.
Ele fazia muitas dessas analises de filmes e cultura pop sobre uma ótica do capitalismo tardio no seu blog k-punk. Mark Fisher nos deixou em 2017, e de uma certa forma essa é minha forma de continuar esse trabalho de observar o mundo por essa ótica.

Conclusão
O filme é bom mesmo! Tem músicas muito boas, explora a cultura mexicana, é muito interessante. Fiz esse artigo pra pensar um pouco além do obvio, e tentar fazer umas correlações com minha visão de mundo e tentar pensar o que a gente consegue identificar de ideologia.
Meme temático pra fechar:

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Pressão estética, solidão urbana e trabalho precário: filmes da semana #1

Dois filmes com algo em comum: protagonistas tentando sobreviver em sistemas que esmagam.
Uma combinação bem aleatória com um romance finlandês ultra-minimalista e um terror norueguês sobre padrões de beleza.
Bora?? 👇
Folhas de outono (2023)
Diretor: Aki Kaurismäki. Finlândia, Alemanha

Sinopse: Ansa e Holappa são duas almas solitárias cujo encontro casual em um bar de karaokê enfrenta vários obstáculos.
Parou parou parou: antes de tudo, um pouco de contexto sobre esse diretor pra entendermos o estilo.
Um diretor que sempre tem protagonistas da classe trabalhadora, e muitas vezes a trama se passa por meio de relações de trabalho. Vemos condições degradantes, porém conseguimos ver as personagens mantendo sua humanidade e dignidade, apesar das condições sistêmicas.
A relação com a ex-união soviética também é muito presente. Filmes ambientados na Europa Oriental e Leste Europeu, temos nuances que mostram o impacto da URSS nos diálogos e modo de viver.
Sobre ESSE filme (Folhas de outono):
A frieza: pra gente do Brasil, as personagens têm uma frieza pra agir e conversar que SOA MUITO ESTRANHA. Chega a ser engraçado! Faça o exercício: se imagine crescendo num país frio da peste, com as relações sociais daquela forma (lembrando que o filme é um pouco caricato também)
Solidão urbana: Uma vibe que até lembra os grandes filmes Encontros e desencontros (2003) e Medianeiras (2011). Conexões genuínas são raras e preciosas.
Precarização do trabalho: Tema atual, né gente. Ambos os protagonistas encaram condições arrombadas de trabalho escancaradas nessa fase do capitalismo tardio.
Muito revigorante assistir a um filme que não segue a típica jornada do herói de Hollywood, ou romances previsíveis. Ritmo lento porém conciso, pessoas reais com dilemas palpáveis.
Meu veredito: FILMAÇO!
A Meia-Irmã Feia (2025)
Diretora: Emilie Blichfeldt. Noruega, Polônia

Sinopse: Elvira luta contra sua linda meia-irmã em um reino onde a beleza reina suprema. Ela recorre a medidas extremas para cativar o príncipe, em meio a uma competição implacável pela perfeição física.
Sinopse (na Mubi): Repleta de vermes, a estreia magistral e medonha da roteirista e diretora norueguesa Emilie Blichfeldt disseca fantasias superficiais sobre a beleza interior. Adaptando o conto clássico, esta versão de horror corporal de Cinderela se contorce na escuridão da história original dos irmãos Grimm.
Então, cês tão ligado que no conto original (irmãos Grimm), a meia-irmã CORTA OS DEDOS DO PÉ pra caber no sapatinho de cristal?
Pois bem... deixa baixo e vamos falar de algumas interpretações.
A pressão estética contemporânea
A mensagem é muito pouco ambígua. A pressão estética grita mais alto que nunca: culto à magreza extrema, "meter o shape" e procedimentos estéticos sem fim. Tudo isso amplificado pelas redes sociais num loop 24h.
Paralelo com o filme Substância (2024)
Ambos os filmes tratam da mesma coisa: mulheres se destruindo para atender padrões estéticos que nunca serão suficientes.
Aparência como forma de ascensão social
No filme, a família protagonista é uma família aristocrata decadente, onde a única forma de manter sua posição social é se casando com um príncipe, e logo, a "beleza" é uma moeda de troca nesse cenário.
A insegurança é um mercado
Numa era neoliberal do capitalismo tardio, tudo vira mercado. Então se você tá de bem com a vida, se divertindo e feliz consigo mesmo, todas as propagandas vão te dizer em uníssono: Não é suficiente.
Pra finalizar, uma função da arte é denunciar, escancarar o que todos estão sentindo, mas nem sempre conseguimos articular. O lançamento de dois filmes similares em datas tão próximas só pode confirmar uma coisa: a pressão estética adoece mais do que nunca.
Show! É isso, dois filmes que vimos recentemente, tentei correlacionar com os temas atuais. Se assistir algum deles, manda um salve.